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TERAPIA E AUTO-ORGANIZAÇÃO INTEGRAL


Entrevista com Sérgio Bracagioli
sobre a abordagem da
TERAPIA E AUTO-ORGANIZAÇÃO INTEGRAL

 

P: A quem esta visão se aplica?

S: A mim, a você, a cada um de nós. A todos. Com a consideração de que estudar essa visão apenas intelectualmente não é uma boa abordagem...é necessário experimentar sua validade passo-a-passo...mas podemos conversar sobre isso.

P: E porque?

S: Porque tudo começa em nossas necessidades. E todos as temos. Mais...

Necessidades materiais (aquecimento corporal, nutrição, respiração, proteção do corpo, exercício). Necessidades afetivas ( ser visto, ser querido, ser cuidado). Necessidades mentais (compartilhar símbolos, linguagem, entendimento). E necessidades espirituais (significado, fazer parte, estar contextualizado na vida). E essas necessidades fazem uma pressão constante para serem atendidas. Uma pressão explícita ou implícita.

P: Explícita?

S: Sim. Explicitada pelas sensações e sentimentos que lhes correspondem. Nas necessidades materiais vão estar as sensações de frio ou calor, fome, asfixia, dor e inquietação motora. Nas afetivas vão estar os sentimentos de frustração afetiva, vazio, solidão. Nas necessidades mentais vão estar os sentimentos de tédio. E nas necessidades espirituais vão estar os sentimentos de auto-isolamento e carência de significado.

P: Implícita?

S: Sim. Implícita em função da perda de contato com as sensações e sentimentos explícitos. Implícita na ansiedade, insegurança, angústia, medo, irritação, dores difusas, sonolência, mal-estar e daí em diante na direção de disfunçoes mais “reconhecidas” como doenças. É interessante que reconhecer algo como doença, de uma certa forma é desconhecer o que realmente é. É uma necessidade não satisfeita. Mais...

P: E então, como fazemos para manter explícitas a percepção das necessidades através de sensações e sentimentos?

S: Bem, primeiro é estar perceptivo aos pensamentos que surgem em função delas.

P: Pensamentos?

S: Sim. Imagens internas, sons internos. Imagens de referência (paradas como fotos) ou filmes associados a essas necessidades. Uma necessidade de nutrição gera a sensação de fome que desencadeia imagens de alimentos ou filmes associados a estar comendo coisas específicas ou a lugares onde se come, etc.

P: Você disse primeiro. Existe uma sequência?

S: Sim. Uma ordem. Uma organização.

P: O que é a segunda coisa ou função?

S: Função é melhor. É o escolher pelo sentir. Por isso é necessário estar sensível. Sentir e decidir dentre as possibilidades mostradas pelo pensamento, qual ou quais delas são adequadas para esta fome, para esta necessidade.

P: E qual o critério?

S: Atração ou repulsão.

P: Você está dentro de um exemplo específico. E como se escolhe pelo sentir outras possibilidades que o pensamento gera para atender outras necessidades?

S: Atração ou repulsão.

P: E depois?

S: Logo depois! Agir no sentido de buscar o que foi escolhido. Isso já é movimento. Comportamento efetivo.

P: Em resumo?

S: Para manter uma conexão com onde tudo começa, é necessário estar sensível às sensações e sentimentos através dos quais percebemos nossas necessidades, reconhecer o movimento que o pensamento faz em função delas, estar consciente de que cenários virtuais são avaliados pelo sentir e agir no sentido apontado pelo sentir.

P: E como saber se essa ordem ou organização foi efetiva?

S: Pela atração global que ela exerce, em outras palavras: satisfação, prazer. Um sentimento de que tudo está adequado, alinhado. Que era isso mesmo.

P: E aí, o que acontece depois de ter essa necessidade atendida?

S: Possivelmente outra necessidade.

P: As necessidades não acontecem simultaneamente?

S: Podem acontecer.

P: E nesse caso não existe uma confusão nessa organização?

S: Pode existir.

P: E pode não existir?

S: Também pode. Tem que ter alguém no comando. Alguém estabelecendo a prioridade. Aqui nasce a escolha maior. Só sabe o que é mais necessário quem sente sensivelmente as necessidades presentes.
Aqui é necessário mais do que consciência sobre as imagens, sons, filmes. É necessário montar cenários distintos. A capacidade de representar / simbolizar entra em ação, uma das funções superiores da mente. Um cenário a cada necessidade. E aplicar o critério de atração / repulsão sobre cada um deles distintamente. Criar planos de ação para cada cenário.

P: Um exemplo pode esclarecer.

S: Digamos que exista duas necessidades presentes. Uma necessidade afetiva: solidão e uma necessidade material: fome. O cenário mental correspondente a fome é estar comendo coisas específicas, ou alimentos etc. O cenário mental correspondente à necessidade afetiva é estar com alguém significativo. Se não estivermos conscientes da emergência dessas imagens para organizá-las em cenários diferentes, pode se formar um cenário único o que me levaria a misturar essas necessidades, submetendo ao sentir elementos de natureza diversa: afeto e comida. E me levando, talvez, a comer para atender a necessidade afetiva ou namorar para me nutrir. Obviamente isso não vai nutrir efetivamente. Uma sensação de falta, agora implícita, permanecerá.

P: E o adequado seria?

S: Estar sensível e consciente. Sentir as faltas, colocando em cada cenário mental as opções de satisfação relativas a cada uma, isolando temporariamente esses cenários. Aplicando sobre cada um, e sobre as opções contida neles, o critério da atração e repulsão. E com base nessa decisão criar um plano de ação correspondente.
Para selecionar entre quais das necessidades / cenários é o prioritário, de novo o critério da atração / repulsão. O que mais atrai é o prioritário.

P: Mas nem sempre a situação permite que o que é prioritário seja satisfeito primeiro.

S: Bem, aí entra a inteligência viva. E só o indivíduo pode exercê-la. É através das escolhas que vai fazer momento a momento que se produz satisfação ou não.
Mas a inteligência e a sensibilidade que são as capacidades necessárias para fazer essa escolha podem ser muito potencializadas pela TAO-I.

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NOTA 1:

Aqui. o “buscador” estará entre duas possíveis alternativas:

(1) Ele pode criar um modelo de si-mesmo através de conhecimentos obtidos através da educação e da cultura. Isso só tem sentido se ele acreditar que os objetivos sociais e os filtros usados para a decodificação das experiências da vida são os mesmos que os dele. Isto é, no meu ponto de vista, uma crença ingênua uma vez que o organismo pode se encontrar num de vários estágios evolutivos e modula a sua percepção de acordo com as suas necessidades específicas. Já as necessidades sociais ou coletivas representam uma média das necessidades individuais e por isso as generalizam e descaracterizam. Até porque, as necessidades de um estágio evolutivo podem se opor as necessidades de outro estágio evolutivo. A criança por exemplo precisa ser conduzida e condicionada ao domínio dos símbolos linguísticos da cultura, para poder se comunicar. O adulto precisa ir além da cultura estabelecida e descondicionar-se para poder gerar uma contribuição original ou desenvolver flexibilidade para lidar com mudanças imprevistas.

(2) Ele pode criar um modelo de si-mesmo baseando-se no princípio de que a percepção direta é a única informação confiável. Nesse caso, só o que é experiência permite informação conclusiva, mesmo que não concluída. O contexto vai se definindo pelos traços deixados por cada experiência. O traço está presente e é real, mesmo que ainda não se saiba como esta parte se encaixa num todo ainda indefinido.

No meu ponto de vista, a opção (2) é o pré-requisito básico para um terapeuta.

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NOTA 2:

Os mecanismos de des-sensibilização são bastante conhecidos: o controle, inicialmente voluntário, da respiração, mantendo-a reduzida, reduzindo a oxigenação e a sensibilidade; tensões musculares reduzindo o mover-se, no mundo, na direção do que atende a necessidade.

Como temos controle sobre os músculos (estriados) voluntários podemos inibir o ver, o ouvir, o sentir, tudo. Isso envolve mais do que tensão muscular, envolve inibição nervosa e endócrina. Podemos levar essa inibição para a origem do impulso nervoso, o que já nos coloca no domínio do processamento mental. E como não podemos nos defender contra o que não podemos sentir: essa inibição chega ao sistema imunológico.

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